Detalhes da Recolha
Recolhida: 2026-02-10
Recolhida por: Pedro Lima
Região: Madeira
Nascimento: 1940s
história escrita
Fernando
1940s · Madeira
“A viver na Madeira, estávamos isolados mesmo dentro de Portugal. O alcance do regime era longo. O meu pai trabalhava num barco que atracava em Lisboa. Uma vez, trouxe um panfleto.”
A viver na Madeira, estávamos isolados mesmo dentro de Portugal. O alcance do regime era longo. O meu pai trabalhava num barco que atracava em Lisboa. Uma vez, trouxe um panfleto. Nunca soube o que dizia — a minha mãe queimou-o antes de eu poder ler. Mas recordo a expressão no rosto dela. Terror, mas também outra coisa. Desafio, talvez. Ou a memória do desafio, o fantasma de uma coragem que outrora teve.
Numa ilha, não há para onde fugir. Toda a gente conhece toda a gente. Uma palavra sussurrada no Funchal podia chegar a Lisboa em dias. Os informadores não eram estranhos — eram vizinhos, primos, homens com quem se bebia vinho na festa.
O regime voltou-nos uns contra os outros. Esse foi o seu maior crime. Não as prisões, não a censura, não as guerras coloniais. O crime foi fazer-nos temer uns aos outros.
Sou velho agora. Conto aos meus netos a história da ilha como era, as flores, a música, a beleza. Mas também lhes digo: recordem que os lugares belos podem guardar os segredos mais escuros.
Mais Histórias
Ver Tudo
Maria
1930s · PortoRecordo o silêncio em nossa casa quando o meu pai voltou do interrogatório da PIDE. Nunca falou do que lhe perguntaram. Mas o tremor nas mãos durou anos.
António
1940s · LisbonA guerra colonial mudou tudo. Tinha vinte anos quando me chamaram. A minha mãe chorou três dias. Todos conhecíamos rapazes que nunca voltaram de Angola.
Isabel
1920s · AlentejoEsta carta foi escrita pelo meu tio à minha mãe em 1968. Tinha fugido para França para evitar o serviço militar. A censura apagou metade das palavras.
José
1950s · CoimbraEra estudante em Coimbra em 1973. A universidade era um lugar de resistência sussurrada. Reuníamo-nos em caves para ouvir música proibida e ler livros proibidos.
Rosa
1930s · MinhoEsta fotografia mostra a minha família em 1962, diante da nossa casa no Minho. Olhem para a cara do meu pai — é a cara de um homem que sabe que alguém está a observar.