Detalhes da Recolha
Recolhida: 2026-01-20
Recolhida por: Pedro Lima
Região: Alentejo
Nascimento: 1920s
Relação Partilhada por membro da família — Isabel
carta
Isabel
1920s · Alentejo
“Esta carta foi escrita pelo meu tio à minha mãe em 1968. Tinha fugido para França para evitar o serviço militar. A censura apagou metade das palavras.”
Esta carta foi escrita pelo meu tio à minha mãe em 1968. Tinha fugido para França para evitar o serviço militar. A censura apagou metade das palavras.
O que resta é o esqueleto de uma conversa — “Estou bem... o trabalho é... tenho saudades de todos... espero poder...” Ao lê-la agora, o que me impressiona não é o que foi dito, mas o que foi apagado. O regime não censurou apenas palavras; censurou o amor, censurou a saudade, censurou o próprio ato de ser humano.
O meu tio morreu em Paris em 1989. Nunca regressou a Portugal. Dizia que o país que amava se tinha tornado uma prisão, e não conseguia suportar ver o que se tinha tornado.
Mas continuou a escrever. Cada carta, cada linha apagada, era um ato de resistência. Um ato de amor através de uma distância impossível.
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